Burnout: uma quebra do status quo - quando ouso valorizar-me para além do que produzo
- Renata Fiorese
- 4 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de fev.

Em plena sociedade do desempenho onde afirmar que tem altas demandas e uma rotina corrida é considerado sinônimo de sucesso e de que alguém deu certo na vida, o reconhecimento dos sintomas do Burnout pode ser desafiador e até mesmo um tabu.
Sintomas esses que são evitados por estar associado a uma possibilidade de evidência de um fracasso, de admitir-se alguém que "não deu conta" como se existisse um ideal de Eu que na maioria das vezes está a beira do humanamente impossível.
O excesso de demanda de trabalho e a fetichização do Workholic contribui para uma tentativa de invisibilização dos sintomas do Burnout levando a acionar um mecanismo de defesa físico-psíquico que muitas vezes se trata do desenvolvimento de uma doença para "forçar" o corpo a parar, para forçar a diminuição do ritmo, paralisando muitas vezes a pessoa e a deixando de cama.

A dificuldade da quebra desse ciclo está associado a valorização social do Eu Produtivo que leva o sujeito a cristalização do Eu associado com a persona do trabalho, desempenhando esse papel em todos os espaços, se identificando inteiramente com esse papel, depositando todo seu senso de auto-estima na sua função - reconhece-se como valoroso pelo trabalho que desempenha, pelo reconhecimento adquirido pelos colegas de trabalho ou chefes - então como seria possível abrir mão, abrir espaço e tempo para outras atividades, se o amor por si existe de acordo com o que produz?
O que tem sido a vida além do trabalho? Existe vida além do trabalho? Quais relações existem além das relações vinculadas pelo ou através do trabalho? Quem é o Eu além da persona do trabalhador? Qual o lugar no mundo, se não em um cargo de trabalho?
Tem surgido um discurso neoliberal que está impregnado inclusive no nicho do autoconhecimento e das terapias. O discurso de que o propósito de vida está associado com uma função, com um título e um trabalho. Claro que é importante sim encontrar um sentido no que faço, mas até que ponto é saudável estimular isso como o centro da vida?

Existe uma diferença entre o Trabalho e o Serviço. O termo trabalho em sua etimologia "remonta ao latim 'tripalium', que designava um instrumento de tortura composto por três estacas de madeira. Originalmente 'trabalhar' significava 'ser torturado', associado a escravos e pobres que não podiam pagar impostos. Com o tempo o sentido evoluiu para se referir a atividades físicas produtivas, como camponeses e artesões, e, mais tarde, ganhou o significado de aplicação das forças humanas para alcançar um fim."
E que fim é esse? Parece estar associado com a realização pessoal, com o desenvolvimento e a melhora de vida, pelo acesso ao capital: "o trabalho dignifica o homem". Ok, existe uma verdade nisso. Mas e o Serviço? O SerViço aponta para uma atividade que produz energia, motivação - é um Ser Viçoso, um Ser com vida, animado (que vem de ânima, alma) - em contato com a alma.
O que estamos nos referindo aqui com o Burnout é uma atividade ou excesso de atividade que produz o movimento contrário: "exaustão emocional, constante sensação de cansaço físico e mental que não melhora com o descanso; falta de motivação, diminuição do interesse por atividades que antes eram prazerosas, tanto no trabalho quanto na vida pessoal, que podem incluir a falta de vontade de desenvolver hobbies e/ou interações sociais; dificuldade de concentração; sentimentos negativos, sensação de desamparo, insatisfação e cinismo; irritabilidade e mudança de humor; alterações físicas, dores musculares, entre outros; dificuldades para dormir", etc.

Parte do caminho de reabilitação é a descoberta e a valorização do Eu para além do Eu Produtivo. Se permitir o ócio, se permitir descansar, se permitir aprender algo sem a obrigação de utilizar essa habilidade para nada mais do que fazê-la por prazer; abrir espaço e tempo na vida para relações sociais para além das do trabalho, para a convivência familiar; conseguir colocar limite para as demandas excessivas, aprender a dizer não e sustentá-lo, aprender a reconhecer como valoroso o tempo e o espaço que não tem a ver com o desempenho e performance - que é o que ajudará na sustentação do não: - "Não posso dar conta dessa demandas porque tenho outros compromissos", mesmo se o compromisso for ficar consigo mesmo apenas.
Existe vida além do trabalho. Você pode encontrar prazer sem precisar ser produtivo. Você é muito mais do que seu cargo e essas outras facetas são tão incríveis quanto. As pessoas te valorizam e te reconhecem mesmo quando você não produz. Vamos construir juntos essa realidade psíquica, emocional? Posso te acompanhar nesse processo, se quiser mais informações só clicar no botão abaixo:
