Obesidade e Compulsão Alimentar: Quando a gordura é armadura
- Renata Fiorese
- 19 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de set. de 2025

Se emagrecer, como irá ser? A gordura como bode expiatório de uma dificuldade de se colocar no mundo, de se sustentar no mundo.
Muitas vezes esse movimento pode se dar como uma consequência de um trauma que gera uma crença de que o mundo é um lugar ruim, mal, inseguro, do qual é preciso se proteger. Assim como as relações. Mas a necessidade de afeto, como uma manifestação natural humana de ser social, não deixa de existir. E então essa tentativa de afetar-se e de se relacionar, acaba sendo direcionado para outros campos - como a comida.
A compulsão alimentar é um desafio porque se trata de uma questão que o sujeito terá que enfrentar todos os dias, ao menos três vezes ao dia, porque concerne uma necessidade básica humana: o comer.
Como se o inimigo se apresentasse todos os dias, a tentativa de melhora pode ser custosa de início, pelo menos até que se descubra os verdadeiros motivos por trás de tal comportamento.
O sintoma é símbolo e mensageiro de algo que precisa vir à consciência.
Compartilho um relato de um caso que acompanhei de uma mulher de mais de 30 anos que enfrentava a obesidade e a compulsão alimentar e que, havia sido abusada pelo pai na infância.
Certo dia na terapia é colocado a questão: "mas e se eu emagrecer? como vai ser?". A melhora estava associada a uma possibilidade de voltar a ser abusada -uma associação inconsciente - 'se tenho um corpo magro terei um corpo desejado, as pessoas passarão a me notar e estarei ainda mais exposta e suscetível à abusos.'
Nesse ponto olhares já eram abusivos. E assim a gordura vira proteção. Uma tentativa inconsciente de criar uma armadura que fará por ela o que nenhum adulto conseguiu fazer na infância - afastar o mal.
As camadas podem ser muito mais profundas do que aparentam. A situação gatilho para o desejo compulsivo de comer é um dos pontos importantes de investigação que trarão mais informações dos significados escondidos no ato do comer desenfreado. É preciso a descoberta para que assim possa ser utilizado outros recursos terapêuticos, mais saudáveis, de compensar aquela falta que está inconscientemente tentando ser preenchida com a compulsão.
No caso citado, a necessidade de desenvolvimento está associada à uma atitude estruturada o suficiente para conseguir verbalizar limites, verbalizar seus desconfortos, dizer não e sustentar, acreditar que a adulta agora tem sim forças para se retirar de lugares de desconforto ou de lutar se for necessário ou gritar como último recurso.

O ambiente terapêutico é o espaço em que cultivaremos a certeza de que a sua voz será sim ouvida dessa vez. Que é seguro pedir ajuda. Que não foi sua culpa. Que ninguém precisa carregar uma dor sozinha.
Terapia é o espaço de reconfiguração do vínculo positivo que abre caminhos de percepção do mundo como um lugar que é possível se expressar sem que isso signifique ameaça.
É possível construir novos olhares. É possível fortalecer as pernas para caminhar novos começos de si e de mundos. Vamos juntos?
