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Sobre a Insatisfação nas relações: consigo mesmo e com os outros

  • Foto do escritor: Renata Fiorese
    Renata Fiorese
  • 16 de set. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 20 de fev.


mulher infeliz

Nunca nada parece ser o suficiente. A sociedade do consumo e o consumo de experiências faz crescer uma sensação sorrateira e perigoso: a insuficiência.


Treinados a acreditar que precisamos sempre acelerar para acompanhar o ritmo do mundo, das tendências, a FOMO (Fear of Missing Out - traduzindo: O medo de ficar de fora, ou de estar perdendo algo), tem sido algo que se alastra em todas as nossas relações.


A cobrança pela alta performance, produtividade e autodesenvolvimento é vendido como um impulso evolutivo que na verdade esconde artimanhas de incentivo do sentimento de nunca ser bom o suficiente, de sempre precisar de mais: outro curso, outro procedimento estético, outra dieta, ou até outro relacionamento amoroso.



mulher depressiva

Em plena sociedade líquida, onde a procura por afeto se concentra no deslizar dos dedos pela tela do smartphone, fomos induzidos à acreditar que sempre poderá existir algo melhor logo ao lado, em uma mudança de tela, alguém mais engraçado, mais rico, mais compatível, mais interessante. Alguém que sustente a imagem ideal de nós mesmos.


Funciona mais ou menos assim: uma fantasia inconsciente de que podemos ter uma personalidade mais extrovertida, mais inteligente ou alternativa, desprendida, viageira, e tendo a acreditar que se "consumirmos" um parceiro romântico sexual que tenha essas característica que carregamos no nosso Eu Ideal introjetado, magicamente teremos desenvolvido tal aspecto que consideramos admirável ou desejado.


Ok. Começamos a nos relacionar com tal pessoa que possui o que julgamos de início que seria um adendo interessante em nossas vidas. Mas com a passagem do tempo, com o compartilhar das rotinas, essa projeção se desmancha, o brilho some e o outro volta a ser nada mais do que outro ser humano, com seus defeitos, limitações e dificuldades.



mãe sobrecarregada

E é ai que a frustração se intensifica, a sensação de termos sido traídos, de termos sido enganados, toma conta do nosso ser e já não parece existir outra alternativa a não ser terminar e tentar manter a esperança de que existe alguém "lá fora" que encaixará melhor, que será melhor, mais compatível. E nesse processo vão se desenvolvendo a baixa-estima, insegurança, agressão na relação, passamos a tratar o outro mal, tudo porque ele não foi capaz de sustentar as expectativas que tínhamos de nós mesmos. Compreendem?


Quantas vezes o apaixonamento se dá por um Parceiro Invisível. Na verdade não nos relacionamos com o outro. Nos relacionamos com uma imagem projetada da nossa expectativa de quem o outro é. Sim, porque de início, em verdade verdade, não conheço o outro, essa possibilidade de conhecer em profundidade é capacidade do Tempo de desvelar. E quando tal acontece, quando o outro realmente se revela, com todas as suas sombras e trevas, o afeto se vai, assim como a luz que um dia enxerguei que o outro pudesse me proporcionar.


O mesmo acontece em relação ao nosso vínculo com nós mesmos.


Esses dias uma paciente trouxe uma perspectiva que me fez refletir muito sobre esse tema. Ela tinha acabado de voltar de uma viagem internacional que havia sido maravilhosa, ela tinha ido com uma amiga, passaram uma semana, amaram a cultura e se divertiram muito, conheceram monumentos históricos e tudo isso. Só que assim que ela chegou, essa sensação que acessara na viagem, do novo, a empolgação, a energia vital, desvanecera, e ela trouxe uma profunda reflexão: "Será que nunca nada será suficiente? Será que existe um momento na existência humana que a gente se sente satisfeito? Ao menos feliz? É possível sustentar esse sentimento por muito tempo?"


Continuamos conversando como a sua experiência na verdade havia sido um paralelo e um reflexo para sua realidade cotidiana. De como o acesso ao diferente havia mostrado, pelo princípio do contrário, que sua rotina estava estagnada, sem brilho, e que na verdade isso apontava para uma necessidade de movimentação, de busca, de investigação por novos interesses. Trazendo o que ela tinha acessado na viagem para a sua vida, e não que ficasse como uma experiência isolada, cristalizada em um momento do tempo: suas férias.



mulher cansada

Temos uma ilusão coletiva de que relacionamentos amorosos precisam existir para que sejamos felizes. Completos. Realizados. Isso esconde um mecanismo inconsciente associado com uma crença de que esse outro carrega a responsabilidade de fazer essa felicidade acontecer, essa sensação de completude finalmente chegar e ficar de vez. E quando o outro não atende esse desejo e necessidade, a culpa é do outro, ele que é insuficiente, a solução deve ser então mudar esse outro, mudar de relação. Outra pessoa sim será capaz de sustentar minha imagem de potência, vai nos impulsionar, nos ajudar a fazer acontecer e nós finalmente poderemos ser quem imaginamos que somos.


Percebe a neurose envolvida nisso? O outro na verdade é um espelho. A insatisfação é um reflexo de um senso de insuficiência que carregamos em nós mesmos. O que incomoda no outro é um convite para que se observe aquela característica em nós mesmos, no nosso comportamento. E isso abre a possibilidade de integração, enxergando essa parte de nós que o outro reflete, temos a capacidade de ser mais inteiro. E agora, munidos da possibilidade de ver, carregamos a possibilidade de transformar essa tal característica que julgamos detestável, seja ela qual for. Depois de ter assumido responsabilidade por sua existência.


Enquanto o defeito estiver nos outros não existe o potencial de mudança. Ninguém consegue mudar outrem. O que está na zona de possibilidade de transformação somos nós mesmos. E quando assumimos esse lugar e essa compreensão, vemos o tanto que é difícil conseguir de fato construir essa mudança. Esta, tantas vezes, tem tantas limitações - o conseguir mudar. Imagine só a pretensão de mudar alguém então - é receita certa para frustração e desgaste.


Nesse sentido, a fala de Sartre é uma denúncia: "O inferno são os outros", que aponta para essa nossa tentativa desvairada de não olhar com verdade para nós mesmos e perceber que o inferno que eu enxergo está na capacidade do meu olho de ver, de reconhecer, portanto, diz também de mim. Isso também se estende para relacionamentos abusivos: o abusador é uma representação do abusador que existe dentro. Se não houvesse uma figura internalizada agressiva, não haveria uma junção, uma vinculação, que sustentasse a continuidade da violência - mas esse é um assunto muito complexo que exige uma profundidade que não entrarei aqui.



mulher em análise, apreensiva

Ouso reiterar mais uma vez: relações são medicina, pois carregam potencial de cura e transformação. Através do outro consigo ter acesso a partes de mim que sem esse espelho talvez não fosse possível. Mas claro, que para isso, para conseguir acessar essa instância curativa do relacionar-se, é preciso uma dimensão de compreensão psíquica profunda, que é um dos principais pontos abordados durante um processo terapêutico, em especial na abordagem analítica.


Se você reconhece estar em um momento de vida em que esses sentires estão ativos e atuantes, saiba que estou aqui e posso te auxiliar a navegar pelas suas complexidades de existir. Se tiver interesse de iniciar essa jornada, entre em contato no botão abaixo:



 
 
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