Sobre Autoestima: entre a verdade de quem você é e a ilusão de quem você acha que precisa ser
- Renata Fiorese
- 6 de abr.
- 4 min de leitura

Você já se olhou no espelho e sentiu que nunca está “bom o suficiente”? Ou percebeu que, mesmo quando recebe elogios, algo dentro de você não acredita totalmente?
A autoestima é um dos temas mais falados hoje — mas também um dos mais confundidos. Em uma cultura que estimula a comparação constante e lucra com a insegurança, muitas mulheres acabam buscando fora aquilo que só pode ser construído dentro.
Sob a perspectiva da psicologia junguiana, a autoestima não é sobre parecer bem. É sobre sentir-se em casa dentro de si mesma.
Autoestima não é vaidade
Uma das maiores confusões é acreditar que autoestima e vaidade são a mesma coisa. Mas elas são quase opostas.
A vaidade está ligada à imagem — à forma como você é vista. Ela depende do olhar do outro. Já a autoestima está ligada ao valor interno — à forma como você se percebe, independentemente da validação externa.
Uma pessoa pode parecer extremamente confiante, bem cuidada, admirada… e ainda assim ter uma autoestima frágil.
Uma mulher que investe constantemente na aparência, mas sente ansiedade intensa diante de críticas ou rejeição, pode estar sustentando uma imagem (persona), mas não um valor interno consolidado.
Na linguagem junguiana, isso revela um descompasso entre a persona (máscara social) e o Self (centro da totalidade psíquica).
O mercado da beleza e o lucro sobre a insegurança

Vivemos em uma sociedade que, ao mesmo tempo em que fala sobre autoestima, reforça padrões quase inalcançáveis. Indústrias inteiras — estética, moda, cosméticos, procedimentos — movimentam bilhões explorando uma ideia silenciosa: “Você precisa melhorar para ser amada.”
Isso não significa que cuidar da aparência seja errado. O problema começa quando o cuidado se transforma em condição para se sentir digna. A lógica do mercado muitas vezes funciona assim:
cria um padrão ideal
reforça a distância entre você e esse padrão
oferece produtos e soluções para “corrigir” essa distância
E assim, a insegurança se torna lucrativa. O risco é você entrar em um ciclo onde: quanto mais busca aprovação externa, mais distante se sente de si mesma.
A raiz profunda: vergonha e desvalor
O autor junguiano Mario Jacoby, em sua obra sobre autoestima, aponta algo

essencial: A baixa autoestima está profundamente ligada à vergonha primária.
Não é apenas “não gostar de si”. É sentir, em um nível profundo: “há algo de errado comigo.”
Essa vergonha muitas vezes nasce em experiências precoces:
falta de validação emocional
críticas constantes
comparações
ausência de acolhimento
amor condicionado
A criança, ao não se sentir vista e aceita como é, internaliza: “eu não sou digna de amor.” E essa crença pode acompanhar a vida adulta, influenciando:
relações afetivas
escolhas profissionais
autoimagem
limites pessoais
Amor e desamor: como reconhecer se eu nunca tive?
Essa é uma das perguntas mais delicadas — e mais importantes. Muitas mulheres cresceram sem uma referência clara de amor saudável. Então, como saber? O amor, em sua forma mais essencial, se expressa como:

acolhimento
respeito
presença
validação
segurança emocional
Já o desamor pode se manifestar
como:
indiferença
crítica constante
rejeição
abandono emocional
invalidação dos sentimentos
Se, na sua história, você precisou se adaptar demais para ser aceita, esconder quem você era e precisava “merecer” amor através de desempenho, é possível que você tenha aprendido mais sobre sobrevivência emocional do que sobre amor. E isso não é culpa sua. Mas pode ser transformado.
Como a baixa autoestima aparece na vida adulta

A baixa autoestima raramente se apresenta de forma óbvia. Ela pode se manifestar como:
ciúmes excessivos
medo de abandono
dificuldade de confiar
necessidade de aprovação
autossabotagem
dificuldade de impor limites
relações desequilibradas
Ou até como uma postura aparentemente oposta: controle excessivo, rigidez, perfeccionismo. No fundo, tudo isso gira em torno da mesma pergunta: “eu sou suficiente?”
Caminhos de reconstrução da autoestima
A autoestima não se constrói com frases prontas. Ela se constrói com experiência emocional vivida. Alguns caminhos possíveis:
1. Reconhecer sua história: Entender de onde vem a sensação de desvalor.
2. Nomear a vergonha: Dar linguagem ao que antes era apenas um sentimento difuso.
3. Diferenciar sua voz da voz internalizada: Nem tudo que você pensa sobre si é verdade — muitas vezes é eco do passado.
4. Construir uma relação mais compassiva consigo mesma: Substituir a autocrítica por compreensão.
5. Aprender a se posicionar: Autoestima também se constrói através de limites.
6. Buscar psicoterapia: Esse é um processo profundo — e muito mais potente quando acompanhado.
Autoestima é um caminho de volta
A autoestima não é algo que você precisa “alcançar”. É algo que você reconstrói

ao longo do caminho. É sair da lógica de tentar ser suficiente para alguém…e começar, aos poucos, a se reconhecer como suficiente para si. Se você se identifica com esse tema — insegurança, ciúmes, sensação de não ser boa o bastante — saiba que existe um caminho possível.
A psicoterapia, especialmente com base junguiana, pode te ajudar a:
acessar as raízes emocionais da sua autoestima
integrar experiências de dor e rejeição
fortalecer sua identidade
e construir uma relação mais verdadeira com quem você é
Se esse texto tocou você, talvez seja o momento de dar um passo em direção a si mesma. Agendar uma sessão pode ser o início de um processo de reconexão profunda. Porque, no fim, autoestima não é sobre se tornar alguém melhor. É sobre voltar a ser quem você sempre foi — antes de aprender que não era suficiente.
